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Cinearte : o cinema brasileiro em revista (1926-1942)

A revista Cinearte foi editada no Rio de Janeiro entre os anos de 1926 e 1942. As coleções são especialmente importantes para a história do cinema no Brasil, já que foi um dos primeiros títulos nacionais inteiramente dedicados ao tema. A revista Cinearte é referência essencial às pesquisas sobre a história do Cinema no Brasil.

A cidade do Rio de Janeiro, à época com uma população em torno de um milhão cento e cinqüenta e sete mil habitantes, contava com setenta e seis espaços dedicados à exibição de filmes em 1926, a maioria comportando mais de oitocentos espectadores, concentradas no centro e nos subúrbios populares. (4) Na transição da pequena à grande imprensa na virada do século, observa-se o aparecimento da crítica cinematográfica em jornais e revistas literárias, o surgimento das primeiras publicações especializadas, a organização de um sistema mundial de divulgação das produções estrangeiras e a abertura de escritórios de distribuição por todo o país, criando, gradativamente, um mercado de consumo ao redor do produto cinematográfico que se expandiu em trinta anos. É inegável, nesse turbilhão de novidades, o estabelecimento de uma indústria cultural nas grandes cidades do Brasil no período de consolidação dos núcleos urbano-industriais.

Antecedendo o surgimento de Cinearte no Rio de Janeiro, surgem os títulos: A Fita (1913), Revista dos Cinemas (1917), Palcos e Telas (1918), Cine Revista (1919), A Tela e Artes e Artistas (1920), Telas e Ribaltas e Scena Muda (1921) e Foto-Film (1922).

Cinearte nasceu a partir da idéia de fazer da seção de cinema da revista Para Todos... uma publicação independente. Publicada pela Sociedade Anônima O Malho, de Pimenta de Mello, detentora do maior parque gráfico da época, Cinearte fica sob responsabilidade dos editores Adhemar Gonzaga (1901-1978) e Mário Behring (1876-1933).

Em 03 de março de 1926, foi lançado seu primeiro número, propondo-se a reunir informes de interesse dos leitores, lutar por condições adequadas de expressando a principal meta de seus elaboradores no editorial de inauguração:

Reunir dentro das páginas de Cinearte quanto interesse aos leitores, seções amplas e variadas, contendo todos os informes úteis e agradáveis, hauridos aqui e fora daqui, em todos os mercados que suprem de filmes o Brasil, é agora possível: Cinearte, será, é o que desejamos, a indispensável leitura de todos os fãs do Brasil.

Os padrões de papel e de formato perdurariam com pouquíssimas alterações até sua última edição, de número 561, em julho de 1942. Com a medida 31X23 centímetros, o “miolo” da revista era impresso em “papel jornal” e as edições variavam a cor das imagens e dos caracteres: azul, verde, marrom, vermelho, etc. Alguns números possuíam páginas em papel especial, que variam de quatro a doze em média, algumas contendo apenas anúncios publicitários. A contra-capa, assim como as páginas 02 e penúltima, também são a cores. Recheada de fotografias de atores e atrizes de cinema, suas matérias versam sobre filmes, fofocas de Hollywood, salas de exibição, informações técnicas, detalhes de produções, legislação, crítica cinematográfica, matérias traduzidas, reportagens enviadas por correspondentes, além das campanhas que abraçava, como a pela isenção dos impostos para o filme virgem, pela implantação da censura federal e pela criação do cinema educativo.

A partir de agosto de 1934, o cinema europeu ganha destaque nas páginas da revista com uma coluna própria: Europa. O lançamento de Cinearte no mês de março não é fortuito: é o início da temporada nos cinemas. Janeiro e fevereiro não eram meses de grande freqüência nas salas de exibição. Além do período de férias, o calor afastava o público de ambientes fechados. Em média, a revista conta com quarenta e quatro páginas.

São permanentes, nos dezesseis anos da revista, as seções dedicadas ao cinema brasileiro. São duas páginas no início da revista, cujo nome altera-se com o passar dos anos: “Filmagem Brasileira”, “Cinema Brasileiro”, “Cinema do Brasil”. Esse espaço é dedicado a comentários sobre estrelas do cinema nacional, aos filmes que estão sendo produzidos, às entrevistas com diretores e técnicos, a artigos variados sobre a política estatal para o cinema e sobre a problemática da indústria cinematográfica nacional.

Se havia predominância do cinema americano, era porque ele, então como hoje, dominava. Mas o Cinema Brasileiro, com duas ou mais páginas, tinha destaque, tanto que aparecia logo a seguir ao editorial. Cinearte publicava críticas e notícias de todos os filmes exibidos no Rio de Janeiro, mesmo no mais longínquo subúrbio.

Foram se estabelecendo contatos por todo o país, um diálogo entre produtores cinematográficos alimentado pela troca de informações, pela publicidade dada às películas nas revistas e pelo estímulo mútuo de criação do que Anita Simis chamou de uma “consciência cinematográfica nacional”. (13) Reunindo um grupo variado de articulistas, Cinearte iniciará seus trabalhos já exercendo o seu papel de mediação entre os grupos ligados à área cinematográfica.

O ano de 1935 na revista é marcado pela retomada da “Campanha Cinearte pelo Cinema Brasileiro”. A batalha pelo reconhecimento da filmagem nacional nunca deixou de existir. Nesse momento, todavia, após a classe cinematográfica ter reivindicado, negociado e recebido incentivos do governo federal, a preocupação em mudar a imagem do cinema brasileiro junto à população torna-se pauta freqüente. A Campanha atribui à incompreensão e ao falso patriotismo as atitudes negativas em relação ao cinema nacional.

Ao traçar a cartografia da revista Cinearte, identificam-se três fases distintas na história desse periódico, refletidas diretamente na análise do debate acerca do desenvolvimento do cinema brasileiro. Ao ser lançado, o semanário circulava, em média, com trinta e seis páginas, com custo de 1$000. A partir da edição 359, em 15 de janeiro de 1933, sua periodicidade passa a ser quinzenal. Com o custo de 2$000, a edição tem, nesse momento, quarenta e oito páginas. Mais do que uma mudança na freqüência de publicação da revista, as mudanças marcam marca o encerramento de uma fase dos assuntos ligados ao cinema brasileiro em Cinearte, cujo ápice esteve na transformação na maneira de escrever essa seção, realizada por Pedro Lima, que se tornou o primeiro repórter especializado no tema no Brasil.

Em sua segunda fase, ela torna-se bimensal. Essa mudança não representa uma queda na média anual de anúncios publicados. Destaca-se a diminuição quantitativa dos grandes anúncios na revista e uma diversificação dos anunciantes e dos produtos veiculados, representando mais de 80% do total, característica que se manterá até o último ano de Cinearte, em 1942.

Identificada como a terceira fase de Cinearte: Sem qualquer notificação, em junho de 1940, a revista torna-se mensal. O preço de capa sobe para 3$000 e percebe-se diminuição no tamanho das colunas, apesar da revista passar para 52 páginas. No momento identificado como a terceira fase da publicação, a soma de anúncios publicados, em comparação com anos anteriores, despenca em Cinearte, assim como a média de veiculação, decréscimo que permanece até o seu fechamento. São transformações que ganham corpo já no início de 1940. Apesar da manutenção da seção “Cinema Brasileiro”, as informações sobre o assunto estão muito difusas: desaparecem dos editoriais (quando são publicados editoriais), saem em matérias fora das páginas da seção, em resumos dos filmes produzidos, são comentados na seção “Televisão”.

A seguir, transcrevemos uma série de sinopses de filmes, comentários e a cotação que recebiam dos editores da revista no período entre 1936 e 1938, uma fase muito profícua para os grandes clássicos de Hollywood, um ano antes do lançamento da mais importante produção da história cinematográfica: "...E o Vento Levou". Complementando o texto, quatro páginas da Cinearte podem ser vistas em tamanho adequado à leitura da publicação.