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Hélder Câmara


Arcebispo de Olinda e Recife, nascido em Fortaleza, morava na Sede Arquiepiscopal do Recife, o Palácio dos Manguinhos, atrás da Igreja das Fronteiras. Em 1964, onze dias depois do golpe que derrubou João Goulart, Dom Hélder mudou-se para o Recife, após 30 anos de Rio de Janeiro. Logo deu ordens a seus colaboradores para que retirassem um antigo e majestoso trono dourado que estava no meio do primeiro salão de visitas. Em resposta ao protesto, ele afirmou: "Precisamos de uma profunda reforma, especialmente no que diz respeito à nossa vida rotineira, a nossas vestimentas. Temos que ser mais simples. Muitos bispos gostariam que assim fosse mas há o medo de serem acusados de demagogia. Agora eu digo: se Jesus Cristo tivesse tido o mesmo medo, não teria nascido onde nasceu".

Franzino, de mãos pequenas, com pouco mais de um metro e meio de altura, Dom Hélder mantinha um sorriso permanente nos lábios. Quase sempre vestia batina branca, sobre a qual carregava uma cruz de madeira presa a uma corrente de aço. Nunca aceitou os paramentos bordados e cajados dourados a que os arcebispos têm direito. Eram ornamentos que não combinavam com um padre habituado a subir os morros das favelas. Raramente ficava calado e quando isso acontecia, notava-se a delicadeza de sua figura, até na maneira de andar quase voando, os pés tocando o chão o mínimo indispensável. Mas na hora em que estava falando, ou seja, quase sempre, ficava esquecido todo o resto e quem o ouvia era levado a concentrar-se unicamente em seus olhos.

Dom Hélder disse um dia a Juscelino Kubitschek, que lhe oferecia a prefeitura do Distrito Federal: Senhor Presidente, não aceito por um motivo muito simples: agora estou sentado na sua frente, representando a Igreja. O senhor me respeita e me considera pelo que eu humildemente represento. Mas como prefeito não poderia sentar-me na sua frente senão como seu subordinado. Compreende por que não aceito?

Em 1950, como simples padre, Dom Hélder foi ao Vaticano para ser aprovado seu projeto sobre a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil por Dom Giovanni Montini, que mais tarde sucederia a João XXIII com o nome de Paulo VI. Dom Hélder teve êxito e, cinco anos depois, foi sagrado bispo na presença de Monsenhor Montini. Ao fim da cerimônia, o futuro Papa ajoelhou-se na frente de Dom Hélder e pediu-lhe a benção.

Dom Hélder nasceu numa escola. Sua mãe, Adelaide Pessoa Câmara, professora, tinha alugado, como se fazia naqueles tempos, uma casa grande, que servia para os estudantes e a família. O governo ajudava com uma pequena verba. O pai, João Câmara Filho, era contador de uma firma de Fortaleza e maçom convicto. Teve doze irmãos. Em 1923, entrou para o Seminário da Prainha de São José, em Fortaleza e, oito anos após, era sacerdote. Impetuoso e veloz, faz um bom trabalho ao tomar conta da intelectualidade local e dos operários, sob as ordens do Arcebispo Dom Manuel da Silva Gomes.

Mais tarde, Plínio Salgado, líder integralista chama-o para a Secretaria de Educação do Ceará. Em 1934, vai para o Rio de Janeiro, como assistente técnico da Secretaria de Educação do Distrito Federal. Foi nomeado Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro e cria a Feira da Providência, participando de programas de rádio e TV, e prestando assistência aos favelados. Em 1964, com o advento da revolução, Dom Hélder não dá sossego aos militares e arrisca-se a ser preso. Nos anos 70, correu o mundo denunciando a tortura de presos políticos e as injustiças sociais. No Brasil, não era ouvido porque a imprensa estava sob censura, mas ficou famoso no exterior e foi apontado candidato ao prêmio Nobel da Paz em 1970. A militância rendeu-lhe ameaças de morte, e sua casa foi metralhada duas vezes. Nessa época, foi um campeão de viagens ao exterior – de 1964 a 1984 fez mais de 800.

O bispo aposentou-se em 1985 e nunca mais pediu para sair ou fazer um passeio, passando a levar uma vida reservada e de simplicidade franciscana. A voz firme, que investia contra a ditadura e denunciava as torturas nos porões do regime, permaneceu quieta a partir de então. Tornou-se um homem frágil, que rezava e meditava em silêncio. Celebrava a eucaristia todos os dias, às cinco da tarde. Na maioria das 53 biografias já escritas sobre Dom Hélder, há referências sobre seu espírito rebelde. Porém, quando se viu confrontado com a autoridade de Roma, o bispo curvou-se humildemente. O bispo conservador nomeado pelo papa João Paulo II que o substituiu em 1985 expulsou vários padres, demitiu membros da Pastoral da Terra, suspendeu funções sacerdotais, fechou dois seminários e até chamou a polícia para retomar uma igreja que um pároco ligado ao ex-arcebispo se recusava a deixar. Dom Hélder aguentou tudo calado, refugiou-se na fé, e assim permaneceu até o fim de seus dias. O religioso faleceu aos 90 anos, em 27 de agosto de 1999.

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